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Quinta-Feira, 19 de julho de 2018
04-07-2018
Bombeiros de quatro patas: cães têm papel fundamental em resgates

Foto: Alberto Takaoka

Sargento Clóvis, recompensando a cadela Milka, que localizou operários sob lajes em desabamento em São Paulo (2013)



Animais são treinados para localizar vítimas de desmoronamentos e desaparecidos em matas

Texto: Assessoria de Comunicação do CRMV-SP

Nesta semana, em que se comemora o Dia do Bombeiro Brasileiro (2 de julho), além dos homens que vestem a farda dessa corporação, os cães também merecem grande reconhecimento, por desempenharem função importante em resgates. A partir do potencial do faro inerente à espécie, os animais são treinados para encontrar vítimas em casos de desmoronamento ou deslizamento de terra e também em situações de pessoas desaparecidas.

Para se ter uma ideia de como isso é possível, basta fazer um comparativo simples da capacidade olfativa dos cachorros com a dos seres humanos. “Enquanto os homens têm cinco milhões de células olfativas, os cães possuem, em média, 200 milhões”, comenta o médico-veterinário Rodrigo Mainardi, presidente da Comissão Técnica de Clínicos de Pequenos Animais do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP).

O médico-veterinário Carlos Augusto Donini, Conselheiro no CRMV-SP, argumenta que essa capacidade mencionada por Mainardi pode ser ainda maior, dependendo da raça, destacando-se Golden Retriever, Labrador, Pastor Alemão, Pastor Belga de Malinois, Bloodhound, Beagle e Bassethound. “Há séculos essas raças foram mantidas e reproduzidas para caça, por que identificavam a ‘pista da presa’ pelo olfato aguçado.”

Outro fator que os médicos-veterinários ressaltam e que influencia nesse potencial é a capacidade que os cães têm de movimentar suas narinas de forma independente uma da outra, o que possibilita distinguir de qual direção vem o odor. “Com isso, conseguem segregar 20 odores diferentes simultaneamente, habilidade que é ainda mais estimulada com condicionamento técnico e adestramento especializados”, afirma Donini, que frisa que, dessa forma, os cães podem identificar partículas de gases, substâncias químicas e biológicas, resíduos de cadáveres (mesmo incinerados) e até corpos submersos.

Eficiência nas operações

De acordo com o Sargento Clóvis B. de Souza, do Canil Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, essas capacidades permitem que o animal vá eliminando trechos de áreas de busca em uma ocorrência, por exemplo, tornando as operações muito mais eficientes.

“Isso aumenta as chances de resgate de vítima com vida, pois enquanto 20 homens, vasculhando uma área pequena, levariam em torno de uma hora para localizar uma pessoa, um único cão conseguiria encontrar a vítima em aproximadamente 20 minutos em um trecho do mesmo tamanho”, afirma Sargento Clóvis.

Para o médico-veterinário Carlos Augusto Donini, Conselheiro no CRMV-SP, essa eficiência também pode ser atribuída, especialmente em casos de vítimas vivas soterradas, à outra “habilidade extraordinária” e distinta dos cachorros: a audição. “Enquanto os humanos percebem sons entre 16.000 e 20.000 hertz, os cães ouvem até 40.000 hertz.”

Treinamento complexo

Diferentes dos cachorros de faro de polícias, que são preparados principalmente para identificar substâncias entorpecentes e materiais explosivos, os do Corpo de Bombeiros aprendem a reconhecer o odor das cédulas humanas, o que significa desenvolver uma habilidade ainda mais aguçada, uma vez que o cheiro do corpo humano pode variar consideravelmente de acordo com sexo, idade e até hábitos de vida das vítimas.

“Os odores mudam de homem para mulher, de idoso para criança, e de pessoas que fumam, consomem bebidas alcoólicas ou fazem uso de drogas para as que não possuem esses hábitos. Todos esses fatores tornam mais difícil o treinamento dos cães, que pode chegar a um ano e meio”, explica o Sargento do Corpo de Bombeiros Clóvis B. de Souza. Para aumentar a eficiência dos trabalhos de preparo dos animais, que começam logo após o desmame dos filhotes, o Corpo de Bombeiros aplica as técnicas, baseadas em brincadeiras para instigar os cachorros, não apenas no quartel, mas principalmente em matas e escombros.

A ideia é que o ambiente se aproxime ao máximo daqueles que os cães encontrarão em ações reais. Assim, o potencial de atenção e olfato tem mais garantias de ser mantido. “Esse ponto também representa um desafio, pois temos que encontrar lugares diferentes para treinos, a fim evitar que o animal fique ‘acostumado’ com um determinado terreno, o que pode limitar a capacidade de busca dele”, conta Sargento Clóvis.

Outra preocupação apontada pelo bombeiro é a exposição dos cães ao máximo de pessoas, focando a variação de odores com a qual os animais podem se deparar em ocorrências reais.

“Para manter a eficiência desses cães de trabalho, a rotina no canil também envolve atividades lúdicas e iniciativas de enriquecimento ambiental”, menciona ainda o Sargento Clóvis, lembrando a importância do bem-estar, pensando não só na saúde física, mas comportamental do animal.

20 anos do canil de SP

Em setembro deste ano o Canil do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, que é referência no treinamento e operações com cães de busca e salvamento no País, completará 20 anos de sua criação.

A iniciativa de instituir o canil foi do Major Wilker e do Tenente Pugliese, que verificaram a necessidade de oferecer um tempo de resposta maior para a busca de vítimas soterradas ou sob escombros e observaram os bons resultados das equipes de resgate com cães em países como Estados Unidos, México, Chile, Colômbia, Espanha e Japão.

No dia 6 de julho de 2001, a cadela Anny e seu condutor, então Cabo Panagassi, localizaram um operário que ficou preso sob escombros por aproximadamente 3 horas em um desabamento na zona leste de São Paulo. Foi a primeira vítima a ser localizada com vida por um cão no Brasil.

Anny e sua irmã, Dara, foram destaques entre os cães que atenderam ocorrências de grandes proporções no início dos anos 2000. Em 2007, por exemplo, elas atuaram no atendimento à ocorrência da queda do avião da TAM, que matou 199 pessoas. No ano seguinte, ambas se aposentaram oficialmente, sendo adotadas pelos bombeiros que as conduziram em serviço, o Sargento Clóvis, na época Cabo, e o Cabo Panagassi.

O efetivo atual dos bombeiros de quatro patas

O contingente de cães no canil segue composto exclusivamente por fêmeas e o Sargento Clóvis explica o motivo: “Os animais não são castrados para que não haja interferência em seus comportamentos naturais. Porém, os cães machos acabam perdendo a atenção mais facilmente, pela necessidade de marcar território ou por sentirem o cheiro de fêmeas no cio, por exemplo.”

Atualmente há sete cadelas, das quais quatro estão em serviço: Hope, Cléo e Vasty, da raça Pastor Belga de Malinois, e Sarah, da raça Labrador. Elas atuaram nas operações do Corpo de Bombeiros em atendimento à tragédia do edifício Wilton Paes de Almeida, no Centro de São Paulo, que desabou depois de incendiar, em maio deste ano. Os trabalhos transcorreram por 13 dias.

Vasty, a mais experiente delas, com quase sete anos de idade, conseguiu identificar o maior número de corpos sob os escombros. Sara foi responsável por confirmar a localização dessas vítimas.

O Sargento Clóvis comenta que Vasty é a única preparada para identificar vítimas mortas, o que requer treinamento específico, devido à mudança dos odores. Esse preparo é um desafio a mais para as corporações no Brasil, uma vez que o uso de odores sintéticos representa custos mais altos, exigindo importação do produto, e não garante a mesma eficácia que o material orgânico. “Já o acesso à matéria biológica é dificultado por entraves da legislação brasileira, que não prevê a destinação desse material para este fim, como ocorre em países como Argentina e Estados Unidos.”

Para ele, atuar com os bombeiros de quatro patas é uma grande satisfação profissional e pessoal, mas também um importante compromisso, que requer dedicação, estudo e treinamentos constantes para preparar os cães para essa nobre missão.

 
 
             

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