Segunda-Feira, 22 de julho de 2019
28-04-2009
Crise na pecuária pode gerar falta de carne

O fornecimento mundial de carne bovina pode passar por uma desestruturação nos próximos anos. Duas regiões são as principais responsáveis pelo fornecimento de carne ao mundo: América do Sul e Oceania. E todos os países envolvidos com o fornecimento do produto têm problemas a curto prazo.
A Austrália, líder mundial em receita com exportações até 2006, vive constantes secas, o que diminui a produtividade do país. A Argentina, que já foi líder mundial e exportava acima de 700 mil toneladas na década de 60, perde espaço e está ameaçada de importar carne bovina em dois anos.
No caso dos argentinos, dois fatores são cruciais para a pecuária no momento: intervenção do governo e a forte seca vivida pelo país.
O Uruguai, outro importante participante do mercado mundial, também viveu um período de secas e deve sofrer as consequências nos próximos dois anos.
O Paraguai, que vem exportando mais, também teve um período de seca, embora menos grave do que Argentina e Uruguai. O volume de exportação do país ainda é pequeno.
Diante desse cenário, o Brasil teria grande chance de avançar no fornecimento mundial de carne bovina, mas a desestruturação da rede de frigoríficos em algumas das principais regiões produtoras do país pode comprometer esse avanço.
"Se o Brasil não resolver essa situação de estrutura da cadeia frigorífica em áreas de grande produção, o mundo poderá sofrer uma falta de carne em dois anos", segundo Luciano Vacari, superintende da Acrimat (Associação dos Criadores de Mato Grosso).
Na sua avaliação, o país precisa criar um mercado sólido de comercialização de gado, melhorando o relacionamento entre pecuarista e frigorífico. Além disso, é preciso tornar as negociações entre varejo e atacado mais transparentes. "Ninguém sabe o que acontece [nessas negociações]", diz ele.
O Brasil tem boi, boa genética, política externa, dólar favorável, qualidade do produto e preço, mas o parque industrial está totalmente desmontado em algumas áreas, segundo ele.
Vacari cita o exemplo de Mato Grosso, principal rebanho do país, que tem 38 plantas habilitadas a exportar, mas 15 estão paralisadas. Essa parada elevou ainda mais as dívidas dos frigoríficos com os pecuaristas, que somam R$ 120 milhões.
Esse cenário traz desconfiança na comercialização de gado e, para devolver essa confiança, Vacari diz que a associação fará tudo o que for possível para a recuperação das finanças dos frigoríficos, mas tem uma exigência. Quer colocar representantes dentro do escritório e das dependências de abate dos frigoríficos para ter garantia de que o gado do pecuarista será pago.
A Abiec, entidade representante dos grandes frigoríficos exportadores, não quis se manifestar sobre a proposta da Acrimat, dizendo apenas que a decisão deve ser tomada individualmente pelas empresas.

Endividamento
O fechamento das portas de vários frigoríficos faz o gado de algumas regiões de Mato Grosso rodar até 800 quilômetros para ir ao abate, o que derruba o preço do animal, compromete a renda do pecuarista e elimina a possibilidade de novos investimentos.
Vacari diz que as dificuldades dos frigoríficos aumentaram com o endividamento excessivo, principalmente com dinheiro do BNDES, e após algumas administrações desastrosas.
Júlio César Malheiros, da Secretaria de Desenvolvimento Rural de Mato Grosso, diz que o país tem dois anos para se preparar para eventual redução de carne nos países vizinhos.
Otávio Celidonio, do Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária), diz que, apesar de todos esses problemas, o cenário é bom para a pecuária e a atividade deve avançar no país.
Vacari diz que o país precisa avançar no Sisbov, que é muito burocrático, e o Ministério da Agricultura não tem condições físicas de atender a todos os pedidos de habilitação de fazendas. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, concorda com Vacari e diz que está pedindo agilização "para os dois Estados [Mato Grosso e Mato Grosso do Sul] onde os problemas são maiores".
Esse avanço é importante para o pecuarista porque com o Sisbov ele consegue ganhar 10% a mais, percentual difícil de ser conseguido apenas com mais produtividade, diz Vacari.

Fonte: Folha de S. Paulo, 28/04/2009

 
 
             

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