Segunda-Feira, 22 de abril de 2019
31-01-2019
Brumadinho: “O fato de os animais não estarem nos planos de contingência muito nos preocupa", diz a integrante da Comissão Técnica de Bem-estar Animal do CRMV-SP

Foto: Rodney Costa/dpa/Getty Images



Com informações da reportagem de Vanessa Barbosa, publicada na Exame.com

Os médicos-veterinários brasileiros em atuação nos resgates aos animais vítimas do desastre provocado pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), buscam minimizar os danos à saúde física e mental dos animais presentes na área devastada. As medidas, porém, fazem parte de esforços isolados, já que o Brasil não possui um plano ou política nacional que inclua os animais em estratégias de redução de risco em desastres.

“O fato de os animais não estarem nos planos de contingência muito nos preocupa, pois a recuperação da comunidade afetada é mais lenta e dolorosa. Além da perda humana eles precisam se restabelecer economicamente”, afirmou, em entrevista à Exame.com, a médica-veterinária Rosângela Ribeiro Gebara, integrante da Comissão Técnica de Bem-estar Animal do CRMV-SP, que está com equipe em Brumadinho acompanhando os esforços de resgate dos animais.

Brumadinho é uma cidade rural com muito animais domésticos, como cães e gatos que vivem na localidade. A área também é um local de produção agrícola, composto por pequenos agricultores que criam principalmente gado, vacas leiteiras, galinhas e porcos para atender a demanda de Belo Horizonte.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que cerca de 15 mil bovinos, 3 mil vacas leiteiras e 10 mil suínos são criados na área. Além disso, a parte florestal da região abriga milhares de animais silvestres, como mamíferos, répteis e peixes.

Atualmente, o Brasil não conta com um trabalho estruturado, e são poucos os profissionais capacitados nos órgãos governamentais para manejar animais em situações de desastres naturais. Alguns países, porém, já incluem os animais nos planos de prevenção e redução de riscos em desastres, como a Nova Zelândia e a Costa Rica.

“Esses países entendem que os animais também são afetados pelos desastres naturais e acabam os incluindo nesses planos, principalmente os animais de produção, porque aí há um impacto econômico para aquelas famílias que sobrevivem a custa de pequenos animais rurais que servem como fonte de subsistência”, diz Rosangela, que ainda pontua que “no Brasil não temos um exemplo de política ou legislação. Existem manuais de defesa civil que mencionam a questão dos animais, mas ainda não temos uma politica estadual ou nacional que inclua de fato os animais numa política de redução de riscos em desastres”, pontua.

Não é apenas o interesse utilitário que está em jogo, mas as relações emocionais e de afeto que cada vez mais pessoas estabelecem com os animais. “Temos que pensar que hoje eles fazem parte da sociedade e da família. Tem mais lares no país com animais de estimação do que com crianças. São 52 milhões de cães domiciliados e 22 milhões de gatos”, destaca Rosangela, lembrando que os animais acabam sendo os mais vulneráveis, já que eles não conseguem pedir ajuda sozinhos.

A organização entende que os governos devem construir em conjunto com a sociedade planos para minimizar os impactos causados, ajudando produtores rurais e tutores de animais a protegerem seus bichos em casos de acidentes.

As medidas de prevenção incluem desde ações simples, como rota de evacuação de animais em áreas próximas a rios e áreas de risco de desastres, até equipamentos e estruturas apropriadas, como geradores e alimentos especiais que podem ser estocados.

“Para animais de companhia, que vivem em casa, por exemplo, se você precisa fazer uma evacuação rápida, ter algum tipo de caixa de transporte e guia de fácil acesso ajuda na retirada do animal, que deve ter plaquinha de identificação”, explica a médica-veterinária.

Vacinas em dia também reduzem os riscos de exposição do animal aos efeitos de um desastre, como o aumento de leptospirose e leishmaniose, prevenindo também problemas em saúde publica com a transmissão dessas doenças.

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