Quarta-Feira, 20 de março de 2019
08-03-2019
Em 10 anos, número de médicas-veterinárias no Estado de SP cresceu 121%

Registro de mulheres zootecnistas também aumentou na última década, atingindo 63,7%

Texto: Assessoria de Comunicação do CRMV-SP

No Estado de São Paulo, o número de profissionais do sexo feminino na Medicina Veterinária segue apresentando crescimento expressivo. De 2009 a 2019, por exemplo, a alta foi de 121% contra os 64% de acréscimo de homens na profissão. Do total de médicos-veterinários atuantes em SP (34,9 mil), elas representam 59,9%.

No contexto nacional, o aumento do número de mulheres na Medicina Veterinária foi ainda maior na última década, atingindo 143%. No Brasil elas representam 50,8% do total de profissionais em atividade. Os dados significam mudanças importantes que a médica-veterinária Augusta Maria Rosa Munhoz Kerbauy viu acontecerem diante dos seus olhos, em 58 anos de atuação profissional. Ela, que acaba de completar 81 anos de idade, segue na ativa como clínica de pequenos animais, em São Paulo.

“Ainda temos que nos impor”

Augusta Kerbauy é a médica-veterinária mais antiga do Estado de São Paulo em atividade. Graduou-se pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) em 1961, em uma turma formada por 27 homens e apenas três mulheres.

“Era uma profissão masculina. Hoje é exatamente o contrário. Mas, ainda que no passado fosse mais difícil termos nosso trabalho reconhecido, pois os homens faziam piada duvidando das mulheres, continuamos tendo que nos impor para que nossa capacidade não seja diminuída”, afirma a médica-veterinária.

Carreira de sucesso

Com postura firme, Augusta Kerbauy percorreu um caminho de sucesso, que inclui um estágio na Suíça e o trabalho com anestesia no Departamento de Cirurgia da FMVZ-USP, posto que ocupou durante cinco anos, após a saída da Dra. Hannelore Fuchs, sob chefia do Dr. Ernesto Matera.

Começou a clinicar simultaneamente ao trabalho na FMVZ-USP. “Por eu ser fluente no idioma alemão, a maior parte dos meus atendimentos era na comunidade alemã no Brasil. Depois abri meu primeiro consultório, na casa da minha mãe”, conta Augusta Kerbauy.

Para ela, o segredo de ainda estar na ativa aos 81 anos é, além de ter pulso firme, se atualizar constantemente na profissão. “A Medicina Veterinária que exerço hoje não é a que aprendi na década de 1960. É preciso se reciclar sempre”, diz Augusta, que enfatiza, no entanto, que o cuidado em examinar o animal de forma completa e sem pressa é um diferencial comum aos profissionais mais antigos no mercado.

O valor de quem acredita nas mulheres

Nessa caminhada, ela faz questão de frisar que mesmo em meio aos desafios havia espaço para apoio. E os principais créditos nesse sentido ela atribui à mãe, cantora imigrante alemã que a criou sozinha após a morte do pai; ao médico-veterinário Dr. Leopoldo Gioso, o profissional que atendia os cães de criação da família e a incentivava a seguir a carreira; bem como à médica-veterinária Dra. Virgínie Buff D’Apice, esposa do médico-veterinário Prof. Dr. Mário D’Apice (catedrático de doenças infecciosas na USP), que antes mesmo de Augusta iniciar a graduação, levou, na década de 1950, a menina que sonhava em ser médica-veterinária para conhecer os departamentos e laboratórios da faculdade.

“Também contei com a parceria do meu marido, Dr. Victor Kerbauy, que fazia as cirurgias em nossa clínica, a qual nós construímos juntos, enquanto criávamos nossos filhos”, menciona.

Nem só de pets vivem elas

E para quem acha que as mulheres são destaque só na área de clínica de pequenos animais, a médica-veterinária Camila Carneiro Hirai, que integra a Comissão Técnica de Alimentos do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), é prova do contrário. Atualmente ela é a Responsável Técnica (RT) da central de distribuição de uma grande rede de supermercados que engloba as áreas de produtos frigorificados, pescado fresco e mercearia.

O interesse pelo segmento surgiu ainda na graduação e a levou a buscar uma pós-graduação em Vigilância Sanitária de Alimentos. Ingressou no mercado em 2003, na área de controle de qualidade da empresa, cuja equipe era formada principalmente por mulheres. Sete anos depois se tornou RT da central de distribuição, atuando no treinamento de equipes e na verificação de todos os processos das diferentes áreas. A partir daí, passou a atuar em um ambiente em que 85% dos trabalhadores são homens.

“Nunca sofri preconceito ou fui desrespeitada. Mas percebo que algumas mulheres mostram algum estranhamento ao atuarem em equipes predominantemente masculinas. Acredito que ser capacitada e agir com profissionalismo sejam dois fatores fundamentais para ser reconhecida”, comenta Camila, que considera crescente o interesse de profissionais do sexo feminino pelo segmento de inspeção de alimentos, embora também avalie que falta incentivo por parte das faculdades de Medicina Veterinária.

Segundo a médica-veterinária, trata-se de uma área que requer muito jogo de cintura e sensibilidade para lidar com fornecedores e com decisões de grande responsabilidade, o que são duas qualidades inerentes da mulher. “Muitas vezes você precisa dizer a um fornecedor, que geralmente é um homem, que a carga dele inteira não poderá ser aceita e, ainda, precisará convencer a empresa disso, mesmo que tenha sido feita uma grande divulgação promocional do produto.”

Presença feminina é marcante também na Zootecnia

Embora elas não sejam maioria na Zootecnia – representando 36% do total de profissionais registrados no Estado de São Paulo e, 31%, no Brasil –, nos últimos dez anos as mulheres se mostram mais presentes: o número de registradas no Estado cresceu 63,7%, enquanto o de homens subiu 34%. Já no âmbito nacional, de 2009 a 2019, o total de profissionais do sexo feminino registrado aumentou 126%.

Nesse universo ainda predominantemente masculino, a Profa. Dra. Telma Teresinha Berchielli se formou em Zootecnia em 1983, contrariando sua família, que residia em Jaboticabal, no interior de São Paulo. “Entrei na faculdade e, no mesmo período, passei em um concurso para trabalhar no então Banespa, em São Paulo. Contra tudo e todos, escolhi a graduação. Minha mãe ficou inconformada”, conta ela, hoje mestra em Zootecnia, doutora em Ciência Animal, professora titular e pró-reitora de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), tudo isso sendo conquistado enquanto criava dois filhos.

Referência nacional

Telma trabalhou em segmentos diversos – com bicho da seda e com aves, por exemplo –, mas já em 1980 havia identificado que se atraia mais pela área de nutrição de ruminantes, assunto no qual se tornou uma referência nacional.

Ela é uma das autoras do livro “Nutrição de Ruminantes”, lançado em 2006, com segunda edição em 2011, que já teve 10 mil livros impressos e foi adotado pelas universidades.

E por falar em universidades, cabe ressaltar que a zootecnista atrelou a sua área predileta de atuação a docência. “Tomei gosto pela carreira acadêmica, pois nela estamos sempre estudando e podemos contribuir com a formação de outros profissionais”, comenta Telma, que também trabalhou na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para trilhar esse caminho ela conta que precisou “convencer as pessoas de que era capaz”. Isso porque não foram poucas as vezes em que desacreditaram de sua competência profissional apenas pelo fato de ser mulher. “Uma vez o pai de um aluno riu quando soube que eu era a professora. Não me intimidei.”

Telma não sabia muito bem o que era Zootecnia quando ingressou na faculdade. Se perguntarmos para ela, hoje, o que é a Zootecnia, a resposta está na ponta da língua: “É o que me fez vencer na vida!”

 
 
             

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