Segunda-Feira, 27 de maio de 2019
24-04-2019
Treinamento para cão-guia é um dos mais complexos dentre os de animais de serviço

De cada dez cães em formação, quatro se tornam aptos para a função

Texto: Assessoria de Comunicação do CRMV-SP

“Ter um cão-guia é viver uma relação de cumplicidade que quebra paradigmas sobre ser cego em um mundo onde tudo funciona para quem enxerga.” É assim que o analista de acessibilidade Gabriel Vicalvi (33), cego por um problema congênito, define a vivência com Júlia (09), sua cão-guia. Há sete anos a Golden Retriever é a grande parceira de vida do jovem, que a descreve como responsável em trabalho, preguiçosa nos momentos de lazer, e amorosa em todas as horas. O atributo de Júlia quando está em serviço mostra o quanto o trabalho de um cão-guia é complexo.

Isso porque é preciso particularidades que vão além das características inerentes a todos os indivíduos da espécie, conhecida pela alta capacidade de auxílio aos seres humanos e pelo comportamento leal que rende aos cães o título de melhores amigos do homem.

Para se ter uma ideia, a cada dez animais em treinamento, somente quatro se tornam aptos para desempenhar o trabalho. “Além da obediência e da habilidade para desempenhar as funções, o cão precisa demonstrar aptidão para atuar com muita segurança, uma vez que será responsável por guiar uma pessoa em diferentes situações e lugares”, argumenta a analista de relacionamento do Instituto Magnus de formação de cão-guia, Janaína Teixeira.

Janaína explica que a formação leva em torno de dois anos. Na maior parte desse período o animal vivencia o processo de socialização com uma família voluntária, com acompanhamento de instrutores e médicos-veterinários. Nessa fase o cão é exposto a diversos tipos de situações, lugares, pessoas e outros animais, o que o prepara para encarar com naturalidade a vida cotidiana. Depois, deixa a família voluntária para passar pelo treinamento específico para guiar, o que inclui obediência a comandos, identificação de obstáculos no caminho e dinâmicas externas, como circular em centros urbanos e usar o transporte público. Por fim, o cão vai para a adaptação com a pessoa que o receberá.

Brasil: 7 mi com deficiência visual; 200 cães-guia

Um agravante ao grau de complexidade do treinamento para cada cão-guia é o fato de não haver no País uma cultura de formação desses animais, o que na Europa se estabeleceu no pós-guerra, para auxiliar pessoas cegas em decorrência dos conflitos.

“O Brasil tem sete milhões de pessoas com alguma deficiência visual e menos de 200 cães-guia em trabalho”, frisa Janaína. A distância entre os números é expressiva, mesmo considerando que nem todos os cegos possam ter um cão como guia – uma vez que ser conduzido por um animal também requer conduzi-lo, o que demanda um grau de independência prévia, com uso de bengala, e uma vida ativa. Outro entrave são os custos para a formação, pois o investimento, para cada animal, é de aproximadamente R$ 60 mil – o que envolve a aquisição do cão; serviços e produtos de saúde e higiene; alimentação; treinamento; entre outros.

Por causa desse cenário, Gabriel Vicalvi precisou aguardar por cinco anos na fila de espera do projeto Cão-guia Brasil até receber Júlia, que, agora, já idosa, está em fase de finalização de seu trabalho como cão-guia. Na opinião do analista, que aguarda por um novo cão no Instituto Magnus, soma-se aos desafios a falta de entendimento nos estabelecimentos, que ainda tentam barrar a entrada do animal em serviço, mesmo que o acesso livre seja respaldado por lei.

Guiar por uma missão

Vicalvi descreve a atuação de um cão-guia como sinônimo de cumplicidade, pela ligação afetiva e a mútua responsabilidade entre a pessoa e o animal. “Há quem julgue errado e exploratório utilizar um animal para se locomover. Ao contrário do que muitos pensam, eles também têm lazer, descanso e se divertem, assim como cães de companhia.”

Segundo a médica-veterinária Cristiane Pizzutto, presidente da Comissão de Bem-Estar Animal do CRMV-SP, uma vez que os animais respondem positivamente ao treinamento, sem manifestar sinais de estresse ou problemas em relação à saúde e bem-estar, não há danos.

“Para um cão-guia, desempenhar o seu trabalho é algo prazeroso, o que funciona como um reforço positivo”, comenta Cristiane, que ainda explica que, na verdade, a fase que demanda maior cautela em relação ao bem-estar é o momento de parar de trabalhar, pois o animal pode entristecer pela falta da função que, para ele, era intrínseca a sua rotina de vida. Por isso, alguns são encaminhados para terapia assistida por animais, com idosos ou crianças, de forma a saciar a necessidade de interação que eles têm.

 
 
             

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