Sexta-Feira, 22 de novembro de 2019
21-10-2019
Outubro Rosa: avanços da Oncologia Veterinária dão sobrevida a animais

Antigamente, o câncer em cães e gatos levava à eutanásia, hoje, a Oncologia Veterinária tem conseguido mudar essa realidade com diagnósticos mais assertivos e tratamentos que garantem uma sobrevida digna aos animais.

“O diagnóstico inicia-se pela detecção de nódulos na região das mamas no exame físico, seguido de análise histopatológica após remoção cirúrgica. Além disso, hoje, podemos fazer uso também da imunoistoquímica como ferramenta auxiliar tanto para diagnóstico como prognóstico das neoplasias mamárias em cadelas e gatas”, afirma a médica-veterinária Juliana Vieira Cirillo, especialista em Oncologia Veterinária.

O principal tratamento de neoplasias mamárias na Medicina Veterinária ainda é o cirúrgico, mas de acordo com Juliana Cirillo, a mastectomia – remoção das mamas - parcial ou total com linfadenectomia regional – remoção cirúrgica de um ou mais grupos de linfonodos – é indicada dependendo da localização das neoplasias. “Nos últimos anos, mastectomias mais conservadoras têm sido consideradas em cadelas, pois alguns estudos mostraram que a sobrevida não foi influenciada pela extensão da cirurgia”, explica. Ainda de acordo com a especialista, o papel da castração para prevenção do desenvolvimento de tumores mamários em cadelas e gatas, antes do 1º ou 2º cio é inequívoco. Por outro lado, os resultados de estudos avaliando o efeito da castração, juntamente ou pós-mastectomia, na sobrevida dos pacientes são controversos.

Quanto à quimioterapia, poucos estudos avaliaram diferentes drogas como tratamento adjuvante após a cirurgia em cadelas e gatas. No entanto, os resultados em relação ao aumento da sobrevida dos pacientes ainda são inconclusivos. “Um recente estudo de 2018 demonstrou benefício clínico com a associação de terapias, como a radioterapia, inibidor de tirosina quinase e anti-inflamatório não esteroidal para cadelas com carcinoma mamário inflamatório, cujo tratamento ainda é um grande desafio na Medicina Veterinária”, afirma Juliana.

Oncologia Veterinária x Oncologia Humana

Embora tenha se desenvolvido, nos últimos anos, a Oncologia Veterinária em comparação à Humana ainda tem um caminho enorme a avançar.

Especialista em Oncologia Veterinária, Juliana Cirillo destaca que em mulheres diagnosticadas com câncer de mama, alguns marcadores prognósticos, como receptor de estrogênio (ER), receptor de progesterona (PR) e expressões do receptor 2 do fator de crescimento epidérmico (HER2) são rotineiramente usados como parte do diagnóstico e para determinar a abordagem terapêutica mais adequada para cada paciente.

Por outro lado, nos caninos, embora a expressão desses marcadores tenha semelhanças com seres humanos, sua avaliação antes do tratamento não é realizada rotineiramente, mas apenas para fins de pesquisa.

“Outro ponto que difere é em relação à quimioterapia. Em mulheres com câncer de mama, a quimioterapia adjuvante no pós-operatório geralmente é realizada com o objetivo de aumentar as taxas de sobrevida e houve muitos avanços nesse campo. Em cadelas, no entanto, a quimioterapia pós-operatória não é usada rotineiramente, uma vez que poucos estudos foram realizados sobre sua eficácia quanto à redução no índice de recidivas e aumento na sobrevida”, explica Juliana.

Segundo a especialista, a avaliação de biomarcadores possibilita diagnósticos clínicos, opções de tratamento e prognóstico para o câncer de mama em humanos. Mas até o momento, o uso de biomarcadores nos casos de neoplasias mamárias caninas e felinas ainda não é uma prática comum.

A Profa. Dra. Maria Lúcia Zaidan Dagli, do Departamento de Patalogia da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) e presidente da Associação Brasileira de Oncologia Veterinária (Abrovet) lembra que há muitos ensaios laboratoriais e experimentais, mas poucos destes chegam à rotina para tratamento de neoplasias mamárias de cães e gatos.

“O principal desafio com relação às neoplasias mamárias refere-se ao controle das metástases. Sempre dizemos que tratar a neoplasia primária é relativamente fácil, pois basta retirá-la cirurgicamente. Entretanto, as metástases são difíceis de controlar, e em geral são elas que levam o individuo a morte. Ainda há muito que aprender no que se refere à eliminação das metástases”, afirma a professora.

Métodos modernos

Entre os métodos mais modernos de tratamento, a imunoterapia está liderando o caminho no desenvolvimento do tratamento oncológico humano e esta tendência mantém-se também na Oncologia Veterinária. O ponto mais interessante neste tipo de terapia, segundo a especialista em Oncologia Veterinária, Juliana Cirillo, é o fato de ser direcionada, atacando alvos específicos em células neoplásicas, preservando as saudáveis e reduzindo de forma significante os efeitos colaterais relacionados à terapia antineoplásica.

A especialista cita, ainda, os avanços na área da genômica. “A aplicação da genômica à pesquisa biomédica canina resultou em grandes quantidades de dados nos últimos 15 anos, identificando regiões do genoma e genes associados a neoplasias específicas. Iniciou-se recentemente nos EUA um estudo nacional de neoplasias caninas, que envolve a coleta de dados sobre a história e as exposições de cada cão e, em seguida, mapeamento geoespacial dos casos de câncer. Esses dados estão sendo consolidados para identificar possíveis preocupações ambientais que estão afetando nossos cães e que também podem estar impactando nossa própria saúde”, ressalta.

Novas drogas para o tratamento paliativo de pacientes oncológicos também têm sido desenvolvidas. “Podemos citar a capromelina, um novo estimulante de apetite bastante promissor para cães e um analgésico de longa duração para o manejo da dor no pós-cirúrgico. Estas novas modalidades terapêuticas são definitivamente mais eficazes que as utilizadas atualmente, mas o tratamento do câncer será baseado na combinação de múltiplas terapias”, conclui Juliana.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde a maior parte dos pets é castrada, no Brasil e em outros países da América Latina e da Europa, ainda existem muitos casos de câncer de mama entre os animais de companhia. “Há grupos muito competentes em nosso País que estão desenvolvendo novos tratamentos em laboratório ou realizando ensaios com cães”, afirma a Profa. Dra. Maria Lúcia Zaidan Dagli, lembrando que a indústria farmacêutica tem grande interesse em testar novos medicamentos em animais com neoplasias, já que estes podem ser modelos para os casos em humanos.

Biossegurança

Um dos tópicos mais importantes na Oncologia Veterinária é a biossegurança. Segundo a especialista Juliana Cirilo, mais de 90% das clínicas que oferecem o serviço não possuem a infraestrutura adequada que segue as normas de biossegurança determinadas pela Vigilância Sanitária. “O grande problema disso é o risco de contaminação pelas drogas quimioterápicas não só do médico-veterinário que manipula a droga, mas também de todos aqueles que compartilham o mesmo ambiente”, enfatiza.

A especialista alerta que a exposição ocupacional, a que estão sujeitos profissionais que preparam ou administram antineoplásicos sem o uso de equipamentos de proteção coletiva ou individual, implica na absorção indevida e considerável dessas substâncias. Esta exposição indevida pode causar desde efeitos simples, como cefaleia, vertigens, tonturas, vômitos, alopecia e hiperpigmentação cutânea, até mais graves e complexos, tais como carcinogênese, efeitos mutagênicos e teratogênicos.

 
 
             

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