Sexta-Feira, 22 de novembro de 2019
01-11-2019
Participação do médico-veterinário é fundamental na garantia da Saúde Única

CRMV-SP propõe que conceito seja incorporado ao SUS e que equipes do Nasf incorporem profissionais da área

União indissociável entre saúde animal, humana e ambiental, a Saúde Única tem ganhado destaque nas últimas décadas, mas, na verdade, o conceito surgiu no século 19, quando o patologista alemão Rudolf Virchow afirmou que entre animais e a Medicina Humana não havia e nem deveria haver divisórias. Foi ele quem criou o termo zoonose para definir as doenças transmitidas pelos animais ao ser humano.

Dentro deste conceito, o médico-veterinário é reconhecido como peça-chave, com um leque amplo de atuação junto aos demais profissionais de saúde. Sua inserção nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf), a partir de 2012, foi determinante para o efetivo reconhecimento de sua contribuição na promoção da saúde. Entretanto, a atuação desses profissionais ainda é restrita. No estado de São Paulo, que possui 645 municípios, há apenas 16 cidades com médicos-veterinários compondo as equipes dos Núcleos. Surpreendentemente, a Capital não faz parte desse rol.

“O Nasf objetiva apoiar, assessorar e ampliar a oferta de saúde com bases multiprofissionais complementares, na análise, proposta e ação integradas e complementares. Neste contexto, a Medicina Veterinária pode contribuir de forma ampliada pela sua competência abrangente e sistêmica sobre os diversos fatores de riscos à saúde a que estão submetidas as comunidades dos municípios”, ressalta o médico-veterinário Carlos Augusto Donini, conselheiro e presidente da Comissão Técnica de Políticas Públicas (CTPP) do CRMV-SP.

A médica-veterinária Eukira Enilde Monzani reitera a importância do trabalho no Nasf levando informações sobre zoonoses, vetores, doenças transmitidas por alimentos (DTA) e até em caso de desastres naturais. “Nosso trabalho envolve orientação individual e coletiva, palestras e ações educativas em escolas e empresas. E no âmbito das estratégias de saúde da família, visitas domiciliares em casos de sarna, piolho, arboviroses, maus-tratos, entre outros”, explica a profissional que participa, desde 2012, do Nasf de Descalvado, primeira cidade no estado de São Paulo a incluir o médico-veterinário em sua equipe.

Adriana Maria Lopes Vieira, presidente da Comissão Técnica da Saúde Pública Veterinária (CTSPV) do CRMV-SP destaca, ainda, que os Núcleos foram criados com a perspectiva de ampliar a capacidade de resposta à maior parte dos problemas de saúde da população na Atenção Básica (AB) com equipes multiprofissionais. E a inclusão do médico-veterinário “indica o reconhecimento da contribuição deste profissional no desenvolvimento de ações para promoção e preservação da Saúde Única”.

O presidente da CTPP adverte que as populações sempre estarão expostas, na maioria dos mais de cinco mil municípios brasileiros, a fatores de riscos de competência do médico-veterinário, inerentes ao monitoramento e controle de saneamento ambiental, o que se justifica pela multiplicidade de competências da Medicina Veterinária.

“É uma pena que essa multiplicidade seja desconhecida pelos gestores – prefeitos e secretários de Saúde. Hoje, contamos com cerca de 200 médicos-veterinários atuando no País, com dificuldades em poder exercer com plenitude todo seu potencial de intervenção e sugestão”, afirma Donini, lembrando que apesar da estruturação ser bem orientada administrativamente, há muitas dificuldades financeiras e gerenciais da maioria dos gestores municipais.

Falta conscientização

A importância da atuação do médico-veterinário dentro do conceito de Saúde Única é indiscutível e sua inclusão no Nasf é irrevogável, mas ainda falta uma maior conscientização. De acordo com Carlos Augusto Donini, a Medicina Veterinária sempre contemplou a observação e intervenção organizada e conjunta entre as espécies animais, seus hábitos, habitat e suas relações, interesses e impactos sobre os humanos. “O conceito de Saúde Única que, particularmente, entendo e descrevo como ‘Uma só Saúde’ permeia a quase totalidade das práticas, ações e intervenções da Medicina Veterinária na sociedade. Resta apenas institucionalizá-lo em cada profissional, principalmente, em sua formação e aprimoramento”, afirma o médico-veterinário.

Para Adriana Maria Lopes Vieira, a maior contribuição do médico-veterinário é atuar com competência e divulgar seu papel na efetivação de ações visando à Saúde Única, não apenas junto aos demais profissionais que atuam na área da saúde, mas aos de outras áreas, aos gestores “e, principalmente, junto à população, uma vez que a sociedade ainda desconhece a amplitude de atuação da Medicina Veterinária”.

O conselheiro do CRMV-SP ressalta a necessidade de prefeitos e secretários em incluir o profissional médico-veterinário nos seus quadros da Saúde. E alerta que as faculdades devem promover a capacitação desse profissional polivalente para suprir as demandas. “Saúde Pública não é um segmento priorizado nos mais de 414 cursos ofertados no País. A carga horária máxima é de 40 a 60 horas, o que não estpa à altura da demanda nacional”, conclui Donini.

Gestão pública

Ainda há muito espaço a ser conquistado pelo profissional médico-veterinário no âmbito da gestão pública. A incorporação do conceito de Saúde Única pelo SUS, proposta defendida pelo CRMV-SP, certamente, abrirá grande e merecido campo de trabalho, mas para isso é preciso visão dos gestores públicos.

Recentemente, o Conselho apresentou a proposta ao Conselho Estadual de Saúde e obteve votação unânime favorável pela indicação do Estado de São Paulo ao Ministério da Saúde para que a mesma seja acatada nacionalmente.

De acordo com Adriana, a iniciativa “One Health” (Saúde Única) tem sido seriamente discutida no mundo, no entanto, no Brasil ainda há muito a ser feito para que haja integração efetiva entre as agências de saúde, os indivíduos, especialidades e setores com vistas a desencadear a inovação e as competências necessárias. “A incorporação do conceito de Saúde Única pelo SUS é um importante passo para conceber soluções adaptáveis, prospectivas e multidisciplinares para o enfrentamento dos desafios que sem dúvida temos pela frente”, ressalta.

Entre as inúmeras possibilidades de atuação do médico-veterinário dentro do conceito de Saúde Única, a presidente da CTSPV, destaca:

- na área clínica, o diagnóstico de zoonoses; prevenção de enfermidades mediante vacinação; orientação sobre comportamento animal para prevenir agressões e abandono; orientação quanto ao manejo de animais de serviço, como cães-guia ou pets terapeutas, promovendo os benefícios do vínculo humano-animal;

- no caso de maus-tratos, os animais podem ser preditores de violência doméstica, e os médicos-veterinários podem auxiliar por meio de notificação de suspeita junto aos setores responsáveis pela investigação;

- parcerias com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e equipes Consultório na Rua (eCR) para o desenvolvimento de ações compartilhadas e integradas às Unidades Básicas de Saúde (UBS) para o atendimento às pessoas em situação de rua que frequentemente vivem em contato estreito com animais;

- nos serviços de inspeção e na composição de equipes de vigilância sanitária;

- na criação, manutenção, manejo, garantia de sanidade e de bem-estar, dentre outras atribuições, para animais mantidos em biotérios, bem como no desenvolvimento de alternativas para o uso destes;

- e, ainda, no ensino; pesquisa; Medicina Veterinária Legal, translacional, bem-estar único; prevenção de contaminação e poluição ambiental; atuação em desastres e desenvolvimento de ações preventivas; segurança alimentar; apreciação e elaboração de projetos de lei; formulação de políticas públicas; atividades educativas, de orientação e de mobilização da comunidade, entre outras.

 
 
             

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