Sexta-Feira, 13 de dezembro de 2019
01-11-2019
Lidar com a morte de pets e o luto das famílias requer autocuidado dos profissionais

Na atuação dos médicos-veterinários da área clínica, o óbito de um paciente gera impactos emocionais que, muitas vezes, levam a conflitos e sentimentos de frustração. Um agravante neste contexto é a lida com o luto dos tutores dos animais tidos como membros familiares. Para os profissionais, zelar pela saúde emocional em situações de perda é imprescindível. Entre as medidas aliadas para esse autocuidado estão: atribuir novo significado à morte e criar fluxos humanizados na rotina de trabalho.

É o que recomenda a psicóloga Joelma Ruiz, especializada no atendimento de médicos-veterinários com foco no gerenciamento do luto. “O profissional da Medicina Veterinária é treinado para salvar vidas, mas a formação não os prepara para lidar com a perda.”

Joelma argumenta que os médicos-veterinários entram e saem de histórias dramáticas muito rapidamente – especialmente quando atendem em urgência e emergência –, o que não permite que haja um intervalo para processar as informações no campo emocional. “Ninguém é super-herói. É natural que os profissionais sintam a perda de um paciente. O luto não é só do tutor do animal.”

Ressignifique a morte

A orientação de Joelma Ruiz é de que os profissionais busquem atribuir um novo significado à morte, no qual o óbito não seja sinônimo de perda ou de fracasso. Esse foi justamente o caminho escolhido pela médica-veterinária Maria Cristina Santos Reiter Timponi, presidente da Comissão Técnica de Entidades Veterinárias Regionais do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP).

Com 31 anos de experiência em clínica de pequenos animais, ela diz que trata a morte de pacientes como parte do ciclo natural da vida, apoiando-se em valores e crenças pessoais. “Não significa que não sinto a perda, até porque, há pacientes que recebo ainda filhote e acompanho até a velhice. Já cheguei a acompanhar três gerações de cães da mesma família. Não é fácil vê-los morrer, mas é o natural, o biológico. Nós, médicos-veterinários, fazemos nossa parte nesse processo.”

Crie um fluxo para o conforto

Manter uma postura menos negativa, porém, requer estratégias humanizadas. No aspecto prático, a psicóloga Joelma Ruiz fala da importância de um momento de reflexão e concentração dos profissionais diante da constatação de um óbito.

“Antes de qualquer contato com o tutor do animal, o médico-veterinário precisa se preparar com ele mesmo. ‘Respirar’ antes de dar a notícia. Estamos falando de poucos minutos para estabelecer esse processo”, menciona Joelma.

Outra orientação da psicóloga é de que haja um ambiente adequado para dar a notícia ao cliente, evitando comoção em locais de circulação de outras pessoas.

A notícia também não deve ser dada por telefone, o que pode tornar a comunicação fria e transmitir indiferença à dor que o tutor está sentindo.

Para esse momento, é indicado ser transparente e solidário, passando todas as informações de forma gentil.

Entenda a nova relação com os pets

A reação de quem perde um animal de estimação, no entanto, geralmente é de grande abalo, mesmo com a abordagem humanizada. Sobre isso, Joelma Ruiz afirma que cabe aos profissionais, para se protegerem do desequilíbrio emocional, lembrar que a relação das pessoas com seus pets se assemelha a de pais e filhos e, por isso, as reações podem ser impactantes. “Não é sobre a qualidade do trabalho do médico-veterinário, mas sobre a dor do luto. Ninguém está preparado para perder aquele que é considerado filho.”

Maria Cristina Santos Reiter Timponi conta que, em uma ocasião, precisou lidar com a ameaça de suicídio de uma mulher que perdeu um cão jovem por uma queda de seu colo. “É preciso traquejo nessas horas e também prudência para encaminhamentos, dependendo do estado do tutor”, afirma ela, que orientou o marido da cliente a levá-la para um hospital.

Zele por sua saúde mental e emocional

De acordo com Joelma Ruiz, se não houver o autocuidado, pode chegar um momento em que os profissionais não terão o que oferecer aos seus pacientes e clientes. “No meu espaço estamos em quatro psicólogos, para atender uma agenda na qual 90% dos pacientes são médicos-veterinários com quadros de esgotamento emocional.”

Ela ressalta que, posteriormente, não raro são diagnosticados quadros de depressão, fadiga por compaixão, burnout e outras síndromes – problemas que podem levar ao suicídio, se não tratados em tempo e corretamente.

Joelma enfatiza que deve haver uma “manutenção” da saúde, com a busca por terapias que ajudem no direcionamento da rotina de trabalho, sempre com foco na redução de impactos emocionais.

“Haverá momentos em que a pessoa não terá discernimento para pedir ajuda e, aí, os gestores precisam estar atentos aos sinais dos profissionais da equipe”, destaca a psicóloga, que lista como sintomas de alerta: irritabilidade, desânimo, falta de compaixão com os outros, taquicardia, angustia, insônia e baixa autoestima.

 
 
             

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