Sexta-Feira, 24 de janeiro de 2020
28-11-2019
Presença da onça-pintada é sinal de equilíbrio ecológico

Criado para alertar sobre a importância da espécie, o Dia Nacional da Onça-pintada, instituído pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), marca a necessidade urgente da preservação do maior felino das Américas. Por ser reconhecida como símbolo brasileiro de conservação da biodiversidade e estar no topo da cadeia alimentar, a espécie é crucial para que diferentes habitats e animais se mantenham.

“Sua diminuição ou eliminação na natureza traria profundo desequilíbrio”, afirma o médico-veterinário Fabrício Braga Rassy, chefe da Divisão de Medicina Veterinária da Fundação Parque Zoológico de São Paulo (FPZSP) e integrante da Comissão Técnica de Médicos-veterinários de Animais Selvagens (CTMVAS), do CRMV-SP. Segundo o médico-veterinário Marcello Schiavo Nardi, presidente da CTMVAS, por ser topo da cadeia, a onça-pintada controla populações de herbívoros e de outras espécies. Quando não há esse controle, o ecossistema sofre. “Assim, haverá a superexploração da mata, porque esses animais, sem seu predador, acabam comendo muito mais plantas e isso tem um efeito até mesmo de modificação da paisagem.”

O felino, de acordo com o MMA, é considerado uma espécie de guarda-chuva, debaixo do qual todas as outras espécies presentes na área onde ele vive estão protegidas.

Além disso, auxilia no controle das populações de diversas espécies. Onde a onça-pintada foi extinta, nota-se aumento, por exemplo, do número de capivaras e a consequente explosão de carrapatos, associados à transmissão da febre maculosa. Dados do ministério mostram também que o Brasil concentra a maior população de onças-pintadas do mundo, cerca de 70%. A estimativa, feita em 2018, aponta que existem aproximadamente 86 mil indivíduos da espécie no País.

Presença em diferentes biomas

A onça-pintada está presente em quase todos os biomas brasileiros – Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal – com exceção do Pampa, onde é considerada extinta. Na Caatinga e na Mata Atlântica a espécie é avaliada como criticamente em perigo. “Com certeza em ambos os biomas as populações estão mais ameaçadas. Mas a situação na Mata Atlântica é ainda pior, embora, o desmatamento lá seja menor que na Caatinga”, explica Nardi.

De acordo com Rassy, a Floresta Amazônica, devido à sua grande extensão, detém uma parcela considerável da população de onças-pintadas do País. “Cada bioma apresenta uma realidade e quantidade de animais, mas podemos considerar estudos em diversas regiões/áreas que indicam que a densidade populacional pode variar de 0,3 a até 10 onças para cada 100 km2”.

Ameaças e risco de extinção

Marcello Nardi destaca que uma das maiores ameaças à espécie é, sem dúvida, a ação do homem, que transforma indiscriminadamente o habitat da onça-pintada. “Além disso, existe a caça por retaliação. As pessoas abatem a onça-pintada, porque ela ataca a criação animal, seja de bovinos, de ovinos”, afirma Nardi, alertando também para a caça por esporte e o tráfico de partes do corpo do animal associado à medicina alternativa chinesa.

Fabrício Rassy concorda e acrescenta que, mesmo tendo o hábito de evitar áreas degradadas e com intensivo uso por atividades humanas, muitas vezes, ela entra em conflito com produtores rurais, “nesse caso, o maior risco é para o animal, pois muitos destes proprietários simplesmente abatem a onça-pintada, prática que se configura em uma importante ameaça à sobrevivência da espécie”.

Atuação do médico-veterinário e do zootecnista na preservação

Com a fragmentação de seu habitat, a conscientização da população e a atuação profissional são imprescindíveis para a preservação da onça-pintada. “Todas as ações e atividades envolvendo a conservação de espécies devem ser planejadas e executadas por meio de equipes multidisciplinares e a participação de médicos-veterinários e zootecnistas é muito importante, considerando as expertises inerentes às atividades destas duas profissões”, afirma Rassy.

Em situações de atendimento, é fundamental que a equipe tenha um médico-veterinário capacitado para evitar acidentes que coloquem em risco a vida do animal, “lembrando que o profissional é importante também nos estudos epidemiológicos e de reprodução da espécie, e atuando com Saúde Única no entorno para evitar que doenças de animais domésticos, como a cinomose, sejam transmitidas para a onça-pintada”, enfatiza Nardi.

O presidente da CTMVAS destaca ainda a conscientização junto aos clientes, já que o médico-veterinário de uma fazenda, sendo próximo ao proprietário que mata a onça-pintada por retaliação, pode promover orientação quanto ao manejo correto, diminuindo os casos de predação da onça-pintada no gado. “Só de manejar o rebanho de forma adequada, você reduz consideravelmente o número de ataques”.

Onças-pintadas x homens

Os ataques de onça-pintada a seres humanos em condições naturais são raros, já que o animal prefere se alimentar de presas como capivara, queixada, anta, jacaré, entre outras. No entanto, como alerta Fabrício Braga Rassy, o desaparecimento de espaços selvagens limitou sua busca por presas naturais, e esses animais precisam de grandes áreas para sobreviver. “Este fato favoreceu o aumento de conflitos entre grandes felinos e o homem ao redor do mundo. Esses encontros podem continuar ocorrendo em locais onde há uma percepção limitada da ameaça em potencial e quando o habitat da onça e a presa natural são comprometidos.” Portanto, ainda que as chances sejam pequenas, ao se deparar com uma onça-pintada, “o mais importante é evitar o contato direto e a aproximação. Caso o animal esteja preso em uma área restrita ou urbana, os órgãos ambientais devem ser contatados”, explica Rassy.

Para Nardi, o primordial é não se aproximar e isolar a área, porque a tendência da onça-pintada, quando se sente acuada, é ficar parada. “Deixe-a no canto dela e chame ajuda do Corpo de Bombeiros, Polícia Ambiental, lembrando que ter um médico-veterinário para fazer a anestesia é fundamental”, enfatiza.

Ações práticas para a conservação da onça-pintada

- diminuir o desmatamento e a consequente perda de habitat dos animais;

- onde já está desmatado, conectar os fragmentos, usar a mata ciliar dos rios e preservar essa área para que a onça-pintada possa se deslocar na paisagem;

- combater o abate e a caça ilegal, seja por retaliação ou por esporte;

- com as populações muito fragmentadas, é preciso ter um programa de troca genética, por inseminação ou por introdução de novos indivíduos;

- conscientização sobre a forma de manejo dos rebanhos para evitar ataques e, consequentemente, a caça por retaliação.

Toda ação vale a pena

Quando uma espécie topo da cadeia alimentar está ameaçada de extinção, toda a ação em seu favor é bem-vinda. A “Jaguar Parade”, organizada pela empresa Artery, é um bom exemplo de iniciativa que usa a arte para chamar a atenção e engajar a população. Foram mais de 90 esculturas de onça-pintada espalhadas pelas ruas de São Paulo e que serviram de alerta para o perigo que a extinção do símbolo brasileiro de conservação da biodiversidade pode representar para o ecossistema.

 
 
             

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