Quinta-Feira, 27 de fevereiro de 2020
12-02-2020
Leishmaniose visceral: número de casos avança e preocupa

Texto: Coordenadoria de Comunicação e Eventos do CRMV-SP

Médicos-veterinários têm papel fundamental para a prevenção

A incidência da leishmaniose visceral em humanos e em cães tem sido uma preocupação no Brasil. Nos primeiros dias deste mês, foram confirmados dois novos casos em humanos em Dracena (SP), sendo que uma das vítimas morreu em decorrência da doença. Em Marília (SP), também houve a primeira notificação do ano. Em 2019, o Ministério da Saúde (MS) contabilizou 2.266 casos da doença em humanos, sendo que o número de mortes ainda está em apuração. No Estado de São Paulo, 85 pessoas foram infectadas no ano passado, das quais 10 foram a óbito.

Os dados oficiais não dispõem da incidência em cães, reservatórios da doença em zonas urbanas – enquanto em áreas verdes são espécies de roedores, marsupiais e pequenos mamíferos. No Estado de São Paulo, apenas alguns municípios contabilizam os casos em animais. Em Presidente Prudente, por exemplo, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) divulgou balanço de 2019 com o total de 337 casos positivos de leishmaniose visceral canina (LVC) na cidade. O número representa um aumento de 28,13% em comparação ao registrado no ano anterior (263).

“A leishmaniose visceral é uma doença negligenciada”, enfatiza o médico-veterinário Mário Ramos de Paula e Silva, membro da Comissão de Saúde Pública Veterinária (CSPV) do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP).

Paula e Silva comenta que a doença “é endêmica em 76 países e, no continente americano, a zoonose é descrita em pelo menos 12. Na América Latina, 90% dos casos ocorrem no Brasil.” O médico-veterinário lista estados como Maranhão, Piauí, Minas Gerais, Tocantins, São Paulo e Mato Grosso do Sul como prioritários em ações de combate.

Médicos-veterinários precisam orientar a população

O cenário é prova de que é preciso conscientizar a sociedade para a prevenção com ações em diferentes esferas.

“Além do poder público, os médicos-veterinários também têm o papel orientar os tutores dos animais para evitar a doença”, enfatiza Paula e Silva. O profissional se refere à conscientização da população quanto à necessidade de manter os quintais livres de folhas, fezes dos animais e outros resíduos, bem como a limpeza de galinheiros e chiqueiros, caso haja criação . “É preciso informar que o mosquito palha é um vetor que se prolifera em ambientes com matéria orgânica.”

Já no que diz respeito à saúde dos cães, Paula e Silva esclarece que os tutores precisam ser alertados sobre a responsabilidade com os animais. “Com a saúde em dia, bem nutridos, mantidos em ambientes limpos e com proteção com coleira à base de deltametrina, as chances de contágio são menores.”

Deficiências sociais aumentam os riscos

A leishmaniose visceral é uma zoonose causada por protozoário (Leishmania infantum) e o contágio se dá por meio da picada do mosquito palha (Lutzomyia longipalpis) contaminado. Paula e Silva argumenta que alguns padrões de transmissão estão sendo alterados e há maior predisposição na área urbana.

“A letalidade aumenta entre vítimas imunodeprimidas e a tendência é a taxa crescer, se não houver medidas intensivas”, diz o médico-veterinário, que atribui a situação, principalmente, a más condições imunitárias dos animais e dos seres humanos, relacionando-as diretamente aos problemas nutricionais e de sanidade vivenciados por populações socialmente vulneráveis. O fator, porém, não anula a possibilidade de infeção de pessoas saudáveis.

Tratamento e prevenção

Para os seres humanos, há um protocolo para tratamento estabelecido pelo MS. Já para os cães, existe uma única substância permitida no Brasil, a Miltefosina, registrada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).No entanto, há ressalvas para o tratamento de animais com a doença.

"A bula do produto informa que não existe cura parasitológica para a LVC e que o declínio da carga parasitária no cão diminuirá o potencial de infecção dos mosquitos. Portanto, a possibilidade de transmissão da doença permanece, ainda que reduzida", sinaliza Leonardo Burlini Soares, coordenador técnico médico-veterinário do CRMV-SP.

O profissional aponta também para a menção, na bula, de restrições para animais com insuficiência hepática, renal ou cardíaca. "Nesses casos, o medicamento somente deverá ser administrado após uma avaliação de risco/benefício realizada por um médico-veterinário."

A utilização de produtos para repelir o flebotomíneo é indispensável paralelamente ao tratamento e, também, após a alta médica, por toda a vida do animal.

Cabe frisar ainda que, conforme o Mapa e o MS, o tratamento de cães com LVC não se configura como uma medida de saúde pública para controle da doença. Em prol da saúde pública, é preciso que haja compreensão de que, atualmente, a eutanásia ainda é a única alternativa em situações nas quais o animal não pode ser tratado com o produto registrado no Mapa.

Soares menciona que o controle da doença requer:

- conscientização sobre a posse responsável aos tutores;

- controle da população canina não domiciliada;

- monitoramento e controle químico do mosquito transmissor;

- manejo ambiental;

- realização de exame sorológico antes da aquisição de cães;

- uso de telas do tipo malha fina em canis;

- limpeza dos ambientes interno e externo das residências.

Vacinação

O mercado dispõe de vacina contra a leishmaniose visceral canina.

Antes da imunização, é preciso fazer a sorologia para ver se o animal é não reagente para a doença.

A vacinação deve ser feita anualmente e as documentações bem guardadas pelo tutor para comprovações.

“Antes de qualquer decisão, em caso de dúvidas, converse com o médico-veterinário do seu animal”, afirma Soares.

 
 
             

Rua Vergueiro, 1753/1759 - 4° e 5° andares -
Vila Mariana - São Paulo
Cep: 04101-000 - SP   [Mapa]

Fone: (11) 5908 4799 - Fax: (11) 5084 4907
Expediente: Segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 16h

   
 
Copyright 2006-2009 © CRMVSP. Todos os direitos reservados.