Quinta-Feira, 9 de julho de 2020
11-05-2020
Instituições de ensino entram na luta contra a Covid-19

Em meio à pandemia, faculdades de Medicina Veterinária realizam diversas iniciativas para auxiliar a saúde pública

Texto: Coordenadoria de Comunicação e Eventos do CRMV-SP

A pandemia do coronavírus trouxe inúmeros desafios a serem enfrentados, e preocupações e novas rotinas impostas pelo isolamento social, mas, por outro lado, as iniciativas visando auxiliar as equipes de saúde no atendimento de pacientes vítimas da Covid-19 se espalham e mostram que o momento também tem gerado diversas ações positivas que merecem aplausos e, acima de tudo, ser replicadas por todo o País. As universidades estão realizando inúmeras ações que auxiliam no combate ao coronavírus. E, especificamente, as faculdades de Medicina Veterinária fazem sua parte de maneira direta, em muitos casos, cedendo respiradores e suprimentos para os hospitais, e disponibilizando o trabalho dos residentes em diversas frentes.

“Nosso programa de residência já contempla atividades regulares em saúde pública e no SUS. E nesse momento, os residentes ficaram à disposição da Secretaria de Saúde”, explica Flávia Lucas, coordenadora da residência da Faculdade de Medicina Veterinária de Araçatuba (FMVA) da Unesp.

Os residentes estão atuando na Vigilância Epidemiológica no combate à Covid-19, apoiando o registro e análise de dados da pandemia, além das atividades no Centro de Controle de Zoonoses. “Nossos residentes foram treinados a orientar os pacientes e são acompanhados pelos responsáveis técnicos”, afirma Alexandre Lima de Andrade, supervisor do Hospital Veterinário da FMVA-Unesp, que lembra, ainda, que cinco aparelhos multiparamétricos com oxímetros foram alocados no Hospital da Mulher de Araçatuba.

Entre as ações da Faculdade de Medicina Veterinária e Zoootecnia (FMVZ) da Unesp, campus Botucatu, os residentes participam do Núcleo Interno de Regulação (NIR) do Hospital das Clínicas do município. “São 32 médicos-veterinários residentes se revezando em três duplas diárias e turnos de cinco horas de trabalho. Eles atuam em parceria com enfermeiros e funcionários do NIR no gerenciamento de leitos e na regulação de vagas para o Ambulatório de Triagem Especial do setor de infectologia do HC”, afirma Cassiano Victoria, coordenador da Residência da faculdade.

Outra ação da FMVZ-Unesp/Botucatu, é a parceria com a Vigilância Sanitária, em que 12 médicos-veterinários residentes compõem as equipes de trabalho. Segundo o coordenador, o objetivo principal é orientar sobre as medidas de prevenção para evitar a contaminação dos alimentos pelo coronavírus. Inicialmente, estão sendo visitados mercados e pequenos comércios que manipulam alimentos, em seguida estão previstas visitas em restaurantes e lanchonetes. “Este engajamento é um dever inerente à profissão e nossos médicos-veterinários residentes compreendem seu papel e atuam de maneira exemplar para colaborar com as equipes de saúde.”

A Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, campus Jaboticabal, até o momento, realizou empréstimo de aparelho de raio-X portátil e um respirador para o Hospital Santa Isabel, no município, além de um respirador, um monitor multiparamétrico e uma bomba de infusão ao Hospital Municipal da cidade de Guariba. “Temos em nosso hospital veterinário, um número maior de equipamentos que estão à disposição dos hospitais destas duas cidades e que serão emprestados de acordo com a demanda”, diz o médico-veterinário e professor Andrigo Barboza De Nardi, lembrando que foram cedidos também suprimentos e máscaras cirúrgicas, aventais e luvas.

Membro do programa de residência da FCAV-Unesp/Jaboticabal, a Profa. Dra. Karina Paes Bürger, explica que a atuação dos médicos-veterinários residentes no Centro de Atendimento ao Coronavírus (CAC), na Atenção Básica e na Vigilância em Saúde estimula a integração e tem como objetivo fortalecer a capacidade de resposta dos serviços de saúde do município.

“Esses profissionais estão desenvolvendo atividades em toda a cadeia de ações de prevenção, laboratório, ambiente e orientação sobre higiene, uso de equipamentos de proteção, conhecimento sobre todas as formas de transmissibilidade e sobre virologia, informação epidemiológica e proteção à saúde”, ressalta Karina.

No CAC, os residentes fazem telemonitoramento de todos os pacientes e casos suspeitos, a cada 48h e durante 14 dias, com o objetivo de saber sobre a evolução dos sintomas, orientar sobre cuidados durante o isolamento domiciliar, e esclarecer dúvidas sobre a doença; fazem a tabulação de todos os dados; e elaboram relatórios e estatísticas, como as análises espaciais feitas em parceria com a Secretaria de Assistência Social. “A atuação do médico-veterinário no enfrentamento da Covid-19 é uma oportunidade prática de mostrar para sociedade o amplo campo de atuação profissional, além de consolidar a efetiva participação na saúde pública”, afirma Karina.

A Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) também está atuando no combate à pandemia. Entre as ações estão o convênio firmado com o Centro de Controle de Zoonoses e a integração ao núcleo do Hospital Universitário (HU) da USP para colaborar com o diagnóstico molecular da Covid-19. “Atuamos realizando a pesquisa de SARS-CoV-2 nas amostras recebidas de hospitais, contando com pesquisadores e alunos de pós-graduação”, afirma o coordenador Paulo Eduardo Brandão, professor do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal, enfatizando que médicos-veterinários têm uma sólida formação em zoonoses e saúde pública, por isso são altamente capazes de prestar auxílio.

A FMVZ-USP também está disponibilizando ventiladores pulmonares e materiais de primeira necessidade para hospitais, como máscaras e álcool em gel, e médicos-veterinários residentes para que participem de atividades de auxílio à saúde. Os residentes abordam e aplicam questionários aos pacientes na entrada do HU; fazem compilação e atualização de dados para encaminhamento dos casos, assim como a intermediação dos casos suspeitos entre o HU e o Hospital das Clínicas (HC) para possível transferência. “Tudo isso comprova que somos agentes de saúde. Temos nos laboratórios da FMVZ-USP docentes envolvidos em pesquisas, temos médicos-veterinários residentes participando em ações diretas no Hospital Universitário, ou seja, engajamento total”, explica o coordenador André Zoppa, diretor do Hospital Veterinário da instituição.

Projeto de respirador de baixo custo conta com médicos-veterinários

Uma dessas iniciativas também acontece na região de Marília, no centro-oeste do estado de São Paulo, onde foi estabelecida uma parceria entre a Universidade de Marília (Unimar-ABHU) e a empresa PPA, especializada em automação de portas e portões, para a fabricação de ventiladores pulmonares de emergência que serão doados para hospitais públicos.

Essa história começa quando as notícias de que o coronavírus havia chegado ao Brasil invadiram os meios de comunicação. Segundo Mariane Peres, coordenadora de marketing da PPA, já no início havia a preocupação de não haver respiradores suficientes para atender a população. “Temos uma equipe de 30 engenheiros que trabalham diariamente na busca de novas tecnologias. O presidente da PPA, encorajado pelo gerente de engenharia e P&D, chegou a conclusão que era hora de iniciar o projeto do Ventilador de Emergência, denominado 10D, por ter sido projetado em 10 dias”, afirma, ressaltando que toda a equipe está impulsionada pelo mesmo motivo: salvar vidas.

“A necessidade e a complementaridade de conhecimento possibilitou o desenvolvimento e a parceria indústria, academia e hospital”, enfatiza o médico e coordenador do projeto, Uri Adrian Prync Flato, professor de mestrado em Saúde da Unimar e diretor do Escritório de Qualidade do Hospital Beneficente.

De acordo com Flato, após a prototipação do ventilador havia a necessidade de se iniciar a fase de testes em animais de experimentação. “Realizamos uma força tarefa capitaneada pelo Prof. Dr. Fábio Manhoso e pela Profa. Dra. Patricia Bueno, que reuniram as lideranças da Medicina Veterinária para delinear o estudo e realizar, em tempo recorde, o projeto. Em 48 horas havíamos desenvolvido o projeto de pesquisa, submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Animais de Experimentação”, afirma o coordenador do projeto, destacando que sem o entrosamento, o espírito de equipe e o propósito de salvar vidas do grupo, formado por médicos-veterinários, médicos, engenheiros, enfermeiros e residentes, nada disso teria acontecido.

Como médico-veterinário, o técnico do experimento, Rodrigo P. Franco, docente de Medicina Veterinária da Unimar sente-se honrado em participar de um projeto grandioso e que tem como objetivo promover qualidade de vida. “Isso mostra que a união faz a força e, principalmente, que, visando a Saúde Única, a Medicina Veterinária tem grande potencial em projetos de pesquisa científica”, afirma Franco, destacando que a equipe conta, ainda, com dois aprimorandos da Medicina Veterinária e o trabalho deles é fundamental em todas as fases do projeto. Para Fábio Fernando Ribeiro Manhoso, coordenador do curso de Medicina Veterinária da Unimar e conselheiro efetivo do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), no momento em que o Brasil e o mundo enfrentam a pandemia, as pessoas têm se manifestado de forma bastante solidária. “É com muito orgulho que vejo médicos-veterinários podendo colaborar e tendo participação efetiva nesse processo em várias ações que visam à saúde humana, com seus conhecimentos de epidemiologia, de farmacologia, de imunologia, de saúde pública, de zoonoses, de intensivismo. E nós da Universidade de Marília sentimos muita honra de ver nossa profissão trabalhando no projeto do respirador 10D”, afirma Manhoso.

Saúde Única no presente e mais ainda no futuro

Durante o período de isolamento social, é normal que hajam reflexões sobre o futuro e uma delas certamente é sobre as lições que a pandemia traz para a saúde pública brasileira. Todos concordam que, embora o SUS seja considerado um exemplo para outros países, ainda há muito a ser desenvolvido para que toda a população brasileira tenha acesso.

“Uma das lições é que as ações de gerenciamento de crise devem ser orquestradas por equipes interdisciplinares”, afirma Uri Flato, destacando que a adversidade deve ser encarada como um momento de oportunidade de desenvolver soluções.

Para Rodrigo Franco, a pandemia expõe as falhas que existem e a necessidade de todos os envolvidos com a saúde pública brasileira revejam conceitos. “No âmbito profissional, a parceria entre várias áreas de atuação da saúde pública, visando sempre a Saúde Única, mostrou que precisamos cada vez mais nos unir com o único objetivo de salvar vidas, promovendo a qualidade de vida.”

Alexandre de Andrade afirma que a atuação do médico-veterinário no Sistema Único de Saúde (SUS) como profissional de saúde de nível superior, além de ter respaldo na necessidade de ações interdisciplinares, reconhecida por resolução do Conselho Nacional de Saúde, gera uma visão de integralidade da atenção à saúde.

Segundo Fábio Manhoso, é preciso um olhar mais amplo sobre a questão da saúde pública e esse momento também reforçou a necessidade da multidisciplinaridade, de ter vários olhares sobre a pesquisa e o ensino, e a capacidade de se reinventar.

 
 
             

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