Quinta-Feira, 9 de julho de 2020
18-05-2020
TEM SEMPRE UM MÉDICO-VETERINÁRIO CUIDANDO DE VOCÊ - Profissionais se mobilizam no combate à pandemia

Profissionais atuam em equipes multidisciplinares para diagnóstico e pesquisa por tratamento contra a Covid-19

Texto: Coordenadoria de Comunicação e Eventos do CRMV-SP

Enquanto muitos estão na linha de frente nos hospitais atendendo aos infectados, outros tantos profissionais da saúde se mobilizam no processamento de exames, enquanto institutos de pesquisa e universidades contam com equipes focadas na corrida por tratamentos e pela vacina contra a Covid-19. E os médicos-veterinários estão presentes tanto nas equipes responsáveis pelos exames, quanto encabeçando diversos projetos de pesquisa que tentam alcançar essa linha de chegada com os melhores. O Instituto Biológico de São Paulo (IB) deve iniciar o atendimento para diagnóstico da Covid-19, com o processamento de exames RT-qPCR. “Na equipe, são cinco médicos-veterinários, além de profissionais do Serviço de Defesa Sanitária Animal e analistas de laboratório”, explica a pesquisadora científica e médica-veterinária Liria Hiromi Okuda, responsável técnica do Laboratório de Viroses de Bovídeos.

A médica-veterinária enfatiza o aprendizado que esse trabalho traz antes mesmo de ser iniciado e a importância do trabalho em equipe. “Mesmo já trabalhando com agentes virais zoonóticos no laboratório, este vírus, o Sars-CoV-2, tem um comportamento diferente, mesmo comparando com os coronavírus bovinos. Portanto, é fundamental contar com equipe multidisciplinar, pois a experiência e a troca de conhecimento são necessárias para combatê-lo.”

Segundo Liria, os médicos veterinários, por formação, já trabalham com agentes zoonóticos e têm conhecimento quanto aos cuidados de biossegurança, epidemiologia e clínica, por isso, são aptos a contribuir no atendimento ao Covid-19. “Como estamos habituados, podemos interpretar com critério os resultados obtidos nos testes diagnósticos correlacionando com a clínica do paciente, antes da liberação dos resultados”, conclui a responsável técnica, reafirmando que o laboratório do IB possui nível de biossegurança 2 e 3, possibilitando a contribuição nas pesquisas sobre o Sars-CoV-2, com isolamento viral, e, futuramente, em parceria com startups ou empresa, no desenvolvimento de testes de produtos, diagnósticos e vacinas.

O IB ainda não tem pesquisa de vacina contra a Covid-19, mas já encaminhou projeto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Estamos aguardando, será um estudo em morcegos no estado de São Paulo e contará também com profissionais da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS/OMS), do Ministério da Agricultura, da Defesa Sanitária Animal”, afirma a pesquisadora.

No Instituto Butantan, o processamento de exames também conta com quatro médicos-veterinários. De acordo com a responsável técnica e médica-veterinária, Renata Gemio dos Reis, esses profissionais estão envolvidos diretamente no diagnóstico da Covid-19 na execução do RT-PCR, desenvolvido no Instituto, para a rede de laboratórios do Estado, ou trabalhando diretamente no desenvolvimento de metodologias de pesquisas com o Sars-Cov-2, envolvendo animais.

Para Renata, a experiência de estar diretamente envolvida no combate à Covid-19 é de certa forma gratificante. “Acho que o envolvimento do médico-veterinário nesse combate traz a consolidação do conceito de Saúde Única, que é muito desenvolvido em outros países, mas, ainda, era negligenciado no Brasil. Nós, médicos-veterinários, conseguimos observar e interpretar a relação entre os pilares, o que facilita uma visão holística do processo saúde-doença. Nossa atuação em equipes multidisciplinares é imprescindível no momento atual”, afirma, esperando que a participação da categoria, neste momento, traga mais prestígio para o médico-veterinário no Brasil.

Já o Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp, campus de Botucatu, desenvolve – junto ao IB, à OPAS/OMS, ao Instituto Vital Brazil, à Fundação Ezequiel Dias e a empresas farmacêuticas brasileiras e americanas –, um tratamento inovador baseado em nanocorpos para o combate à Covid-19 em pacientes infectados. A coordenação geral do projeto é do médico-veterinário Rui Seabra Ferreira Júnior, pesquisador associado do Cevap e professor adjunto da Faculdade de Medicina. Seabra comanda uma equipe formada por médicos, farmacêuticos, bioquímicos, biólogos e sete médicos-veterinários. A equipe multidisciplinar faz estudos imunológicos em lhamas, que ao serem desafiadas pelo novo coronavírus, fabricam anticorpos de baixa massa molecular e elevada capacidade neutralizante.

A expectativa da equipe é a melhor possível até porque o conceito já teve sua eficácia comprovada em estudos recentes. “Nosso desafio é transformar esta pesquisa em um medicamento. O uso de nanocorpos irá possibilitar o tratamento dos pacientes, de leves a graves, a partir de um medicamento administrado por spray nasal, que atuará diretamente sobre a replicação do vírus no organismo. Também poderá ser usado de maneira profilática em profissionais expostos constantemente ao vírus, impedindo a entrada e contaminação das células”, explica o coordenador do projeto.

O médico-veterinário enfatiza que os nanocorpos são indicados para o tratamento de inúmeras doenças até então incuráveis e têm inúmeras vantagens em relação aos anticorpos tradicionais: rápidos clearance sanguíneo e penetração nas cédulas e nos diversos tecidos corporais; reconhecimento de epítopos intracelulares ocultos de difícil acesso; travessia da barreira hematoencefálica; elevado rendimento de expressão e produção em sistemas microbianos; armazenamento e formulação dentro do preconizado pela farmacopéia; fácil manipulação genética com elevada solubilidade; excelente estabilidade térmica; baixo potencial imunogênico, permitindo tratamentos com doses elevadas e de repetição.

De acordo Seabra, já foi finalizada a etapa de definição das melhores e mais rápidas estratégias para se chegar a um produto para ensaios clínicos em humanos e foram definidos também qual os antígenos virais baseados no Sars-CoV-2 que são utilizados para imunizar as lhamas. “Pretendemos estar com o produto acabado e com os testes pré-clínicos concluídos dentro dos próximos 10 meses, o que inclui testes para avaliar a segurança, a eficácia preliminar in vivo e in vitro, e prover uma dose inicial para os testes em humanos, além de controles de qualidade exigidos”, afirma.

O pesquisador do Cevap-Unesp já teve a oportunidade de liderar a equipe de produção de dois outros medicamentos que avançaram para ensaios clínicos de fase II: um Biopolímero de Fibrina, usado para o tratamento de úlceras venosas crônicas, e também do Soro Antiapílico, único tratamento específico no mundo destinado a acidentes causados por abelhas africanizadas. “Os desafios de tirar o conhecimento da bancada de nossos laboratórios de pesquisa e transformá-los em tecnologias e bens para a população direcionam a minha carreira e me fazem levantar da cama toda a manhã.”

Contribuição da classe e futuro de possibilidades

É fato que a multidisciplinaridade das equipes de pesquisa é fundamental e as diversas expertises focadas em um mesmo projeto é determinante para alcançar os objetivos. E a contribuição dos médicos-veterinários nas iniciativas científicas no combate ao coronavírus é evidente.

Para Rui Seabra, do Cevap-Unesp, a Medicina Veterinária talvez seja uma das profissões mais adequadas para este tipo de estudo, pois o médico-veterinário é capaz de compreender componentes básicos de uma doença através de seus aspectos bioquímicos, imunológicos, fisiológicos e patológicos. “Por outro lado, está diretamente preparado para atuar na terapêutica e tratamento de pacientes, circulando assim com naturalidade em todas as fases do desenvolvimento de um novo medicamento. Logicamente, médicos deverão estar em contato com os pacientes nos ensaios clínicos, mas a visão macro do médico-veterinário o faz um profissional único para este fim.”

O Cevap-Unesp recebeu investimentos na ordem de R$ 12 milhões do Ministério da Saúde para a construção de uma Fábrica de Produção de Medicamentos Biológicos para ensaios clínicos, que deverá entrar em funcionamento em pouco mais de dois anos. “Certamente a tecnologia desenvolvida no projeto de tratamento da Covid-19 com os nanocorpos, devido a sua flexibilidade de gerar outros medicamentos, ajudará a produzir medicamentos de última geração com tecnologia 100% nacional, possibilitando, assim, sua distribuição pelo Sistema Único de Saúde (SUS).”

O diagnóstico para a doença, segundo Renata dos Reis, do Instituto Butantan, exige uma estrutura que permita um perfeito fluxo de trabalho, com áreas específicas separadas fisicamente, conhecimento em boas práticas de laboratório, qualidade em todo o processo e experiência em pesquisa básica e aplicada, ou seja, profissional capacitado e conhecimento técnico específico. Renata destaca, ainda, que o médico-veterinário pode não só atuar, mas fortalecer e enriquecer essas pesquisas, “tendo em vista o conhecimento em doenças infecciosas e epidemiologia, por exemplo, quando cerca de 80% das doenças infecciosas que temos conhecimento hoje em dia são zoonoses”.

Coordenada pelo Instituto Butantan, a Plataforma de Laboratórios para Diagnóstico de Coronavírus no Estado de São Paulo é composta atualmente por 50 laboratórios com capacidade para realizar cinco mil análises por dia, podendo chegar a oito mil. Desde o dia 1 de março foram processadas e liberadas 75,1 mil amostras, mediante realização de exames do tipo RT-PCR, que identifica o material genético (RNA) do vírus.

 
 
             

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