Quinta-Feira, 9 de julho de 2020
05-06-2020
Pegada ecológica: o que a pandemia nos ensina sobre a preservação da biodiversidade e a Saúde Única?

No Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06), mudanças observadas na vida selvagem, a partir do isolamento social, devem basear novas reflexões e condutas

Texto: Coordenadoria de Comunicação e Eventos do CRMV-SP

Cabras foram vistas passeando pelas ruas da Espanha. Raposas, flagradas rolando na grama de quintais de ingleses. Na Itália, os canais de Veneza ficaram cristalinos e, em vez de turistas, receberam a visita de águas-vivas. Uma onça-parda saltou o muro de um condomínio residencial no Chile. No Brasil, macacos foram brincar entre janelas de um prédio no Rio de Janeiro. Ainda não há estudos sobre mudanças na natureza durante a pandemia de Covid-19, no entanto, é sabido que a reclusão das populações para o enfrentamento à doença alterou não apenas a rotina dos seres humanos, mas também a de animais silvestres de vida livre.

Os registros, feitos em plena luz do dia, são um convite especial neste Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06) para as diferentes esferas da sociedade se debruçarem com mais perspicácia sobre o que é necessário para que equilíbrio entre humanos, animais e meio ambiente, o tripé do conceito de Saúde Única, cujo cerne são as práticas que permitem a convivência em harmonia e com sanidade. Isso porque, embora a maior parte dos registros tenham virado notícias com tom cômico e de celebração, provocado pela graça típica dos animais, ficam evidentes questões bastante profundas sobre a coexistência das espécies e os limites entre os espaços urbanos e as áreas verdes.

Na opinião da médica-veterinária Cristiane Schilbach Pizzutto, presidente da Comissão Técnica de Bem-Estar Animal (CTBEA) do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), as notícias dão margem há duas linhas de pensamento bastante opostas: por um lado, o otimismo diante da possibilidade de sinais de recuperação da natureza, por outro, a preocupação diante do desequilíbrio gritante nas cenas de animais selvagens em meio ao asfalto e às estruturas urbanas.

“O que há em comum em ambos os olhares é que nós, humanos, somos os responsáveis tanto por interferências positivas, quanto pelas negativas. Ou seja, com a pandemia ou não, se mudamos nossas atitudes, temos resultados. É preciso optar pelas ações corretas”, diz Cristiane, lembrando o quanto a fauna de diferentes regiões do mundo perdeu habitat natural em decorrência da forma de vida do ser humano. “Não acredito que estejamos diante de sinais de regeneração da natureza, mas, sim, que ela está mostrando que está viva e que podemos dar a oportunidade para ela se refazer.”

Segundo a médica-veterinária Elma Pereira dos Santos Polegato, presidente da Comissão Técnica de Saúde Ambiental (CTSA) do CRMV-SP, o que se observa em meio à pandemia é um fenômeno semelhante ao que já foi detectado em pesquisas recentes sobre alteraçao de hábitos de animais selvagens. “Espécies de médio e grande porte, tais como elefantes, leopardos, ursos, alces, lontras e macacos, vêm utilizando o ambiente urbano para sobreviver em várias cidades ao redor do mundo, aproveitando o silêncio e a menor circulação de pessoas no período da noite para buscar alimentos que já não encontram em razão da drástica redução dos seus espaços.”

O argumento vai na mesma direção do que comenta o médico-veterinário Marcello Schiavo Nardi, presidente da Comissão Técnica de Médicos-veterinários de Animais Selvagens (CTMVAS) do Regional, que afirma que mesmo as atividades mais cotidianas do ser humano alteram hábitos dos animais. “Estudos já identificaram que mesmo os de hábitos diurnos passaram a apresentar comportamento noturno”, afirma Nardi, lembrando que este é um exemplo de apenas uma mudança, cujos reflexos são diversos – como desequilíbrio na cadeia alimentar e nas populações de diferentes espécies e a ausência de funções que animais cumprem para os ciclos em seus habitats.

Momento convida a refletir sobre o impacto do consumo

“A natureza tende ao equilíbrio e nossa forma de vida precisa mudar, visando a redução dos diferentes tipos de impactos que provoca”, enfatiza Nardi, pontuando o que considera ser a maior mensagem da natureza neste momento de crise sanitária global.

O médico-veterinário menciona a necessidade de revermos os nossos padrões de consumo, desde a escolha dos alimentos que vamos levar à mesa até os itens mais supérfluos. “Precisamos comer o que comemos? Vestir o que vestimos? Precisamos de tudo que compramos e que geram resíduos diversos em seus processos fabris?”, indaga Nardi, chamando à reflexão para as emissões de poluentes no ar, solo e águas, atividades que provocam desmatamento e o uso excessivo e/ou inadequado de recursos naturais para a produção em diferentes cadeias, o que impacta não somente na vida selvagem, mas diretamente na saúde e qualidade de vida do ser humano.

Para se ter uma ideia, mesmo com as mudanças no cotidiano dos paulistas, ainda não foi possível constatar uma melhora significativa da poluição do ar. Prova disso é o que tem sido observado em estações da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, os índices de alguns poluentes estão dentro dos parâmetros considerados de “qualidade boa” pela Organização Mundial de Saúde, conforme relata a gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb, Maria Lúcia Guardani. “Porém, não é possível afirmar nem quantificar a melhora em comparação ao mesmo período do ano passado, uma vez que as condições climáticas atuais são mais desfavoráveis e interferem na dissipação dos poluentes”, explica.

Cristiane concorda com Nardi ao afirmar que “a pandemia e seus desdobramentos mostram que podemos viver com menos e valorizar mais as experiências. A ideia é consumir menos, poluir menos e desfrutar mais dos momentos.”

Neste contexto, somam-se aos pormenores dos processos industriais de diferentes setores a problemática do excesso de resíduos após o consumo, além da ausência de políticas públicas eficientes para a logística reversa acessível e aplicável em todas as camadas sociais.

Saúde Única: promove-la é uma necessidade cada vez mais latente

Os tópicos abordados de forma enfática por Nardi, Elma e Cristiane transparecem a relação do momento atual com a necessidade de promoção do conceito de Saúde Única, no qual a saúde humana, animal e ambiental são indissociáveis e que, embora a bandeira tenha sido erguida há quase dois séculos (quando o patologista alemão Rudolf Virchow afirmou que entre as medicinas Humana e Veterinária não deveria haver divisórias), sua aplicação ainda tem muito a sair do campo da teoria para a prática.

No que diz respeito ao novo coronavírus, a ciência trabalha para trazer mais respostas quanto ao homem como hospedeiro. O que se levantou, até o momento, é que a origem da situação provavelmente esteja relacionada ao contato de forma indiscriminada com espécies silvestres, em uma engrenagem fortemente impulsionada pelo aspecto econômico e extremamente carente de educação para a preservação da fauna e para a garantia da saúde coletiva.

“O cenário que estamos vivenciando deixa claro que é preciso rever o consumo de animais selvagens, tanto o consumo em si, quanto as formas de abate e comércio, que também é uma realidade em regiões do Brasil, não só na China”, alerta Nardi.

Sobre este aspecto, Elma explica que dentro do equilíbrio natural, há espécies hospedeiras de agentes causadores de doenças. “Quando há conservação dos ecossistemas, o risco geral de transmissão de patógenos é reduzido. Por isso, pensar na saúde do meio ambiente é, também, pensar na saúde humana e uma forma de mitigar a propagação de doenças.”

Além da preservação da biodiversidade, Elma argumenta que outros fatores de desequilíbrio estão muito atrelados ao surgimento de doenças em humanos. “Entre eles estão as ações – como processos com alta emissão de poluentes – que contribuem para a elevação da temperatura do planeta, a qual favorece o aumento de vetores e patógenos com alta capacidade de adaptação às condições e às espécies.”

Segundo a médica-veterinária, a crise da biodiversidade é também uma tragédia humana que somente com uma mudança de postura da nossa espécie, somada à resiliência da natureza, é possível reverter. “O ser humano precisa estabelecer uma relação mais cooperativa e respeitosa com o meio ambiente, do qual ele faz parte. Mudar em prol da natureza também é mudar para uma humanidade mais resiliente.”

Dia Mundial do Meio Ambiente

A data, 05/06, foi estabelecida pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1972, em homenagem ao dia da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo. Um dos principais resultados da movimentação foi o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que prevê ações a serem aplicadas globalmente para a preservação da biodiversidade.

 
 
             

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